cupom fiscal
Estava arrumando o quarto quando me deparei com um cupom fiscal praticamente em branco, sem poder dizer de quando era ou do que se tratava. Forcei a vista, arregalando e comprimindo os olhos, mudei a posição, deixando na luz e na sombra, mas mesmo assim não pude concluir. Por alguma razão, isso me deixou atonita, com medo da ideia de um dia esquecer de tudo e não poder responder a uma simples pergunta como: de onde era esse papel? Junto a isso, tenho pensado muito na morte. Quando nada mais houver, quando não pudermos mais acumular pilhas e pilhas de cupons fiscais ou responder as simples perguntas. Esse momento me aterroriza nas horas mais alegres do meu dia, me atormenta como um pesadelo e me persegue como um inseto faminto, assim como me faz questionar a utilidade das notas fiscais. São tão passageiras quanto seres humanos. Não cumprem com a função da estabilidade, durabilidade, com as minhas expectativas. E com isso, meu peito se enche de ar e angústia. Uma angústia que surge como uma nuvem de chuva, mas nunca chove. Só fica cada vez mais e mais abafado. Cada vez mais e mais escuro. Nada acontece. Piora quando, numa tentativa de conforto, meu cérebro me lembra de momentos da infância. Memórias com minha mãe e minhas irmãs, das histórias que ouviamos antes de dormir e das canções que alegravam nossos dias. Aquilo bastava para mim, mas não para minha mãe. Anos e anos se passaram, namorados vieram e se foram, notas fiscais ficaram brancas e ainda sinto que nós não bastávamos para minha mãe. Isso me rompe o coração. Me pergunto em silêncio: quantos cupons fiscais eu precisaria guardar para que ela se lembrasse desses bons tempos construídos apenas por nós 4. Às vezes desejo como uma criança esperançosa que ela olhe pra mim e se lembre de como éramos felizes, e então me pergunto se realmente éramos felizes. Me pergunto se sou uma nota fiscal em branco, amassada no fundo de uma gaveta, cheia de outros cupons fiscais que outrora guardavam uma pequena memória, como da vez que fomos comer sushi no seu aniversário, do cachorro quente que comemos no parque de diversões, das comédias romanticas e músicas inventadas no carro enquanto esperavamos o frentista encher o tanque. Me pergunto se cupons fiscais de memórias distantes seriam o suficiente para que ela mudasse, mesmo sabendo que no final das contas eu continuarei me sentindo tão inútil quanto um cupom em branco.
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